Queria que houvesse apenas ternura por trás de sorrisos mascarados onde posso sentir, por trás, o hálito da malícia bem suave e dissimulado.
Queria acreditar que há algo de bom além do interesse pessoal nas palavras ditas com ternura. Queria ouvir o que grita dentro do coração de cada pessoa e descobrir qual impulso a move e para onde pretende arrastá-la.
Eu não sei mais se acredito em sentimentos sinceros.
Acredito que as pessoas se preocupam com a sua imagem diante do meio em que vivem, e a partir daí extraia sentimentos como piedade, compaixão e gratidão.
Elas se preocupam em estar sós, disso extraia sentimentos como amizade e afeto, disfarçados com muita simpatia.
As pessoas se preocupam em ter alguém com quem possam contar, extraia daí sentimentos como paciência, tolerância e humildade.
E por essa estrada caminham muitos outros sentimentos que ocultam muitos outros interesses ou receios.
Basta colocar as pessoas em competição que os disfarces se vão. Basta ameaçar de alguma forma o conforto de alguém para que os sorrisos sinceros se encham de agressividade e ironia.
Basta alguém deixar de se sentir querido para que encha sua boca com o gosto amargo do rancor e do ressentimento.
E por aí vai. Por trás de cada sentimento há a fisiologia, há a biologia, há a força da natureza que nos fez assim.
Sinceridade? Só se a pessoa se convence de que age por forças acima de sua condição humana.
Há interesses, somente.
Ou você vai me dizer que tem muitos amigos com mais de 70 anos ou com menos de 10?
E é por isso que sinto tanta antipatia por gente excessivamente simpática. Essas me parecem ser os lobos mais famintos.
Odeio os disfarces que as pessoas utilizam para encobrir seus reais desejos. Odeio hipocrisia. E tenho muita piedade, dessa piedade maligna, de pessoas que se julgam espertas demais a ponto de acreditarem que são capazes de ocultar o seu verdadeiro eu oportunista através de mal dissimulados bons sentimentos puros.
Devo ter muito disso, sem dúvida, pois não estou fora do grupo composto pelos chamados seres humanos. Mas prefiro fechar os olhos e fingir que acredito nos bons sentimentos que se espalham por aí do que gerar atritos inúteis.
As pessoas me cansam, assim como é extramamente entediante forjar carisma e, mais chato ainda, discutir com pretensos guardiões da verdade ensoberbados com seu orgulho.
Por sorte, estamos todos na mesma gaiola e teremos todos o mesmo fim. É o meu consolo quando olho para gente vestida com casacos expessos de arrogância.
E quanto ao amor e os sentimentos do bem, só existem os que não terminam, nem por discórdia, nem por afastamento, por nada.
Amor é doação, é incondicional, é querer à outra pessoa tão bem quanto se quer para si, ou mais. E é eterno, por mais infantil que isso soe. Há uma coisa que no Islã se chama "amar ao próximo por amor a Deus". É o amor sem motivos de ser, o verdadeiro sentimento, que não precisa de causa nem motivação, simplesmente existe (se é que ainda existe).
O que existe hoje é o amor a tudo que é banal. Existe fraqueza, instabilidade, insegurança.
Estamos evoluindo, nos tornando racionais. Frios, egoístas, materialistas. E eu estou ficando cada vez menos surpresa por perceber isso que se evidencia mais e mais.
Viver é uma experiência solitária, é isso que estou constatando.
Mas não, eu não perdi as esperanças, afinal, todos temos nossos interesses.
Há 18 anos

2 comentários:
A diferença do intelectual para o filósofo, que o primeiro tenta "prosear" o que sente ao invés de "viver" o que sente. Por isto que a intelectualidade é do domínio dos religiosos: lindos hinos e textos que no entanto não contém vida em si. Aquele que realmente busca alguma verdade não fala, não reclama, busca a vida sempre. Não constrói catedrais de louvor à mediocridade, pois para isto não tem tempo algum.
Sentimentos sinceros existem, mas eles estão cobertos de egoismo. Nossas amizades se formam através do que entendemos dessa palavra; nao existe sentimento que esteja longe do egoismo: procuramos nos outros o que temos em nós e/ou o que nos falta.
Tudo se baseia em nós mesmos e isso não é errado nem injusto. É natural.
Não procure por algo muito diferente disso porque você pode não encontrar e a frustração bate forte.
Nossa amizade, por exemplo, se baseia muito no que temos em comum (e em menor grau, nas semelhanças).
Se lembra de que você me disse uma vez que talvez não fossemos amigos de fossemos diferente do que somos?
Hoje posso dizer que concordo. Nossa alma não podia ser diferente do que é porque (talvez) não teríamos razão para nossa amizade.
Tá vendo...fui egoista. Fazer o quê?
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