Eu tinha pensado em escrever algo começando assim:
De todos os piores sentimentos que experimentara, sem dúvida, a angústia era o que mais o afligia, pois aglomerava num único momento várias emoções: medo, insegurança, a terrível impressão de perda de controle da vida, desnorteamento causado pela forte dor quase física que o dominava quando sentia esmagado o peito e aquele sufoco ao se ver caindo rápido no abismo sem fim cuja luz parecia cada vez mais distante. A angústia era tristeza e desespero e crescia incontrolavelmente, forte e resistente. Foi nocauteado por essa explosão subjetiva que atordoado e cansado acordou, como se tivesse sido arremessado para esse abismo abruptamente. Essa tinha sido a sua primeira impressão do dia.
Ainda na cama, olhou pela janela. O céu escuro de nuvens carregadas era o reflexo de sua alma.
Mas eu não me atrevo a terminar. A regra desse blog é ser escrito em primeira pessoa e eu sou exageradamente honesta para assumir meu egocentrismo.
Honestidade, uma boa virtude pouco apreciada e cultivada. E o que mais me irrita, a hipocrisia. Especialmente quando se trata de moralismo e religião; especialmente quando usam esse pretexto para passar uma boa imagem para me impressionar; especialmente porque eu admito sempre que erro e prefiro que as pessoas mostrem seu lado humano e suas falhas, pois sempre acreditei que a cumplicidade une as pessoas e que a capacidade de reconhecer seus erros faz de alguém uma pessoa digna de admiração.
Coerência é a segunda das virtudes que mais gosto. Pois eu, mesmo sendo uma pessoa tão conflitante, mantenho ao longo da minha vida uma atitude coerente. A honestidade se prova através da coerência dos atos, sem uma não tem outra. É sendo coerente que as pessoas passam a depositar a confiança em você.
Toda vez que conheço uma pessoa de quem eu gosto, que ganha a minha amizade, eu procuro uma forma de mostrar que estou interessada em algo além da trivial conversa de fila e de elevador. Porque eu gosto de relações verdadeiras e intensas, fortes e sólidas. Porque eu acredito que é assim que se faz uma pessoa te amar, te conhecendo. E por isso eu abro sempre o jogo de imeditato, para mostrar que gosto da pessoa, que confio nela e que ela pode confiar em mim. Eu mostro que sou gente, que assumo mesmo as minhas falhas, que tenho um milhão de dúvidas e que eu não me importo que ela faça o mesmo. Amor é assim, você quer se sentir confortável e seguro. E eu sei que com alguns amigos, mesmo que afastados, o sentimento permanece, pois é sincero e amor verdadeiro não acaba. Amor não acaba.
E é por esse motivo que eu desconfio tanto de pessoas apaixonadas. A paixão é, dos sentimentos, um dos mais traiçoeiros e cruéis. Ela distorce a realidade e faz com que quem olha veja na pessoa vista alguém que não é, que não existe. Com base nessa visão maquiada, ela passa a acreditar que a pessoa por quem está apaixonada é ideal para si e, pior, passa a tentar convencer a vítima do mesmo. Mas a paixão é um sentimento vazio, infundado e fraco. É uma nuvem que limita o campo de visão e que é etérea e efêmera. A paixão é algo ridículo, ela só serve mesmo para unir pessoas que possam vir a se amar. E esse amor só vai acontecer se elas conviverem tempo suficiente para que possam se ver e se enxergar como realmente são e, apesar disso, estarem dispostas a permanecer juntas.
A verdade é que estou aprendendo a desconstruir certos conceitos duvidosos, como amor e felicidade. Quanto mais você estuda um assunto, mais você compreende como funciona seu mecanismo e a mágica desaparece. E o que é o amor senão um ritual patético que domina, vez ou outra, todas as pessoas? Basta ler os tratados sobre o assunto para perceber, vide Ovídio, Stendhal e Ibn Hazm. É, praticamente, o mesmo livro em épocas e regiões diferentes. Independente disso, eu ainda acredito no amor. Só acho que as pessoas são materialistas, superficiais e levianas demais para conseguir alcançar esse estágio. Em geral, elas permanecem na paixão, movidas pela fome rapidamente saciável do desejo. Não que o amor exclua isso, mas é algo além. Amor é de alma. Amor é para poucos, bem poucos.
A verdade é que eu queria encontrar alguém que pensasse ou, ao menos, concordasse, comigo. Ou talvez seja preciso despertar isso nas pessoas e eu não tenha essa habilidade (sim, foi um desabafo). Mas não, a culpa não é minha. E o tempo me provou isso. E eu só tenho a agradecer a Deus por ter sempre me protegido e evitado que eu tomasse alguma decisão com um base no que eu via na máscara que as pessoas usavam.

Um comentário:
Encontrou alguém que concorde com você, mas, infelizmente, eu sou o tipo de pessoa que quer errar só uma vez nos diversos assuntos da vida; e talvez por isso, você esteja um passo à minha frente: você ainda acredita quer possa dar certo. Parabéns!!! tenho muito que aprender com você (nao estou sendo piegas, acredite)...
Tomara que eu tenha tempo e inteligencia suficientes para isso.
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